domingo, março 04, 2012

Na leitura das mãos, o nome é a substância que lavra o texto.



1


Nos dedos há a combustão possível.
Na carta velha as palavras doem
no esquecimento da emoção da frase
e no relâmpago do tempo soa
o trovão de uma tempestade fria.
Há milhares de brincadeiras femininas
que se colam ao filme, e de tão cegas
na luminosidade dos holofotes
as personagens constroem figuras
que são as simples sombras irrequietas.
Há, claro, a possibilidade lúdica
da intervenção da escrita literária
que persegue o desejo do pão claro
na seara semeada no próprio tempo.


2


Na subversão da escrita
o desejo não é uma falácia.
Se escolho o texto, escolho a emoção
que persegue a frase transfigurada.

a mulher é sintagma, flor-palavra
poema-árvore, erotismo, ruga-de-tronco
floração para todas as estações.

Toco no texto, acaricio o corpo;
na escrita leio a forma
da escultura das letras, o desenho
com a voz que permanece no rosto.

Na leitura das mãos, o nome é a substância
que lavra o texto.


3


A lua tem a forma, e tem a cor
de um poeta romântico com sífilis.
A doença pornográfica que veio
da leitura de um poema de Baudelaire
acentua-lhe a tristeza campesina
quando, para lá dos olhos, o mundo
é um simples ponto sem admiração.
O chão é a fronteira dos sentidos
porque o desejo não ultrapassa o texto
que, displicente, cai na flor do rio.
A frase, inteira, é um acessório
que enfeita a margem do tecido puro.


4

na parede há um texto
de emoções.
não encontro nela
as palavras do desejo.

a árvore, lá fora
dá-me o fruto
numa carícia perdida na folhagem.


5

no espelho do teu rosto
o meu desejo.
a frase, imperceptível
voa dos lábios
para os dedos.

joaninha a perceber a emoção
do silêncio da palavra.

6


a claridade luz
sublinha a sombra

a réstia de alegria que anuncia
o início do sorriso


Autor :José Félix in "Lector", excerto do livro no total de 20 poemas

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