domingo, março 11, 2012

direis vós. porque se morre de amor?


Porque se morre de amor


procurou-se nos livros já antigos
e até nos mais recentes a explicação
da atitude de querer morrer de amor.
porque é de um gesto que se trata,
morrer de amor é ter o pressentimento
da impermanência do outro. sem memória não
se resgata a beleza de um sorriso nem
a brevidade do sexo extasiado,
na dádiva constante do corpo e
de um roçar simples dos sentidos.
e morrer de amor é viver do amor
no último grito dado na catedral,
no eco das naves de pedra, polida
de cânticos e sons e vozes velhas.
direis vós. porque se morre de amor?

há uma flor sem uma pétala viva
por isso corta cerce com as mãos
o fio de sol que liga ao caule novo.
não importa que a seiva escorra para a boca
se os lábios frios não polinizam o beijo
que a vida importa de outro corpo aberto.

domingo, março 04, 2012

Na leitura das mãos, o nome é a substância que lavra o texto.



1


Nos dedos há a combustão possível.
Na carta velha as palavras doem
no esquecimento da emoção da frase
e no relâmpago do tempo soa
o trovão de uma tempestade fria.
Há milhares de brincadeiras femininas
que se colam ao filme, e de tão cegas
na luminosidade dos holofotes
as personagens constroem figuras
que são as simples sombras irrequietas.
Há, claro, a possibilidade lúdica
da intervenção da escrita literária
que persegue o desejo do pão claro
na seara semeada no próprio tempo.


2


Na subversão da escrita
o desejo não é uma falácia.
Se escolho o texto, escolho a emoção
que persegue a frase transfigurada.

a mulher é sintagma, flor-palavra
poema-árvore, erotismo, ruga-de-tronco
floração para todas as estações.

Toco no texto, acaricio o corpo;
na escrita leio a forma
da escultura das letras, o desenho
com a voz que permanece no rosto.

Na leitura das mãos, o nome é a substância
que lavra o texto.


3


A lua tem a forma, e tem a cor
de um poeta romântico com sífilis.
A doença pornográfica que veio
da leitura de um poema de Baudelaire
acentua-lhe a tristeza campesina
quando, para lá dos olhos, o mundo
é um simples ponto sem admiração.
O chão é a fronteira dos sentidos
porque o desejo não ultrapassa o texto
que, displicente, cai na flor do rio.
A frase, inteira, é um acessório
que enfeita a margem do tecido puro.


4

na parede há um texto
de emoções.
não encontro nela
as palavras do desejo.

a árvore, lá fora
dá-me o fruto
numa carícia perdida na folhagem.


5

no espelho do teu rosto
o meu desejo.
a frase, imperceptível
voa dos lábios
para os dedos.

joaninha a perceber a emoção
do silêncio da palavra.

6


a claridade luz
sublinha a sombra

a réstia de alegria que anuncia
o início do sorriso


Autor :José Félix in "Lector", excerto do livro no total de 20 poemas

terça-feira, dezembro 20, 2011

cartas que falam da intimidade mais íntima como a agonia de cortar uma flor

cartas íntimas


já não se escrevem cartas íntimas como antes
daquelas que começam por meu caro amigo
senhor fulano caro senhor com o nome
a data e o local de onde era remetida.

cartas que falam da intimidade mais íntima
como a agonia de cortar uma flor cerce
para dizer de um beijo perdido na boca
presa à fala de uma palavra interdita.

nem só de tempo se construíam as frases
porque o desenho da semântica vivida
tornava mais próximo o outro na leitura fácil
lúdica quase da interpretação das plantas.

pois era assim que toda a gente começava
por decifrar a cor das pétalas colhidas
a cada dia ou numa frase do papel
página que aconchega as emoções tardias

na confissão aberta da palma da mão.
como ficava mais perto aquele endereço
no movimento simples dos dedos, da escrita,
numa carícia breve à sombra da memória,

beijando as margens de uma carta provisória,
conforme as linhas, rios cheios de palavras,
intenções da alma, o fogo ardido até que acabe
a lenha e cure o lanho de um olhar ferido.

talvez escreva a carta como antigamente
na folha de uma planta verde. na nervura
desenho um sol antigo e no limbo o azedume
é no crisol do tempo. permanecerá

até que o vento limpe as folhas de fuligem.
meu caro amigo o tempo tem vestígios lúcidos
convenientes à contemplação do fruto
grado maduro à espera de soltar sementes

em terra fértil onde vão todas as águas
e depois brotam das arestas da memória
as sombras de uma árvore reconstruída
uma bebida de palavras pronunciadas

no olhar penumbra, a escrita umbrátil que se prende
ao fio dos lábios que só pedem a presença
do espelho das palavras fixas na outra margem.
a carta, assim escrita, feita de silêncio

de imagens lidas na travessa doutro tempo
acariciada pelos dedos, permanência
de afectos e emoções navegadas nas rotas.
há sempre tempo para a carta de intenções.


José Félix

domingo, dezembro 11, 2011

numa tarde que o rosto encontra, enfrenta a ressa de sol que atravessa os galhos.

- O fazer poético de José Félix _



Do Fogo - Um Olhar

um olhar

um fogo frio é o gume aceso
da fala que se despe de seus lábios,
é a substância, o pó que poliniza
o beijo fértil no vaso de azálias.

a água, sede no rio da planta,
viaja murmúrios e ventos e folhas
numa tarde que o rosto encontra, enfrenta
a ressa de sol que atravessa os galhos.

catulo desejava beijos mil,
um cento só e mais mil beijos de lésbia
e se perdessem ambos no conto útil.

um olhar basta-me para que a névoa
espelhe o lume brando, um fogo lábil
preso numa palavra nua, sábia.

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A Penumbra


de repente misturo-me
na penumbra
que entra sem pedir.
intrusa
conquista a casa, cada
geometria da habitação
perdem-se as arestas
os espelhos reflectem sombras
no cio do silêncio.
a palavra
só a palavra renasce
a estrutura dos objectos.
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Porque se morre de amor


procurou-se nos livros já antigos
e até nos mais recentes a explicação
da atitude de querer morrer de amor.
porque é de um gesto que se trata,
morrer de amor é ter o pressentimento
da impermanência do outro. sem memória não
se resgata a beleza de um sorriso nem
a brevidade do sexo extasiado,
na dádiva constante do corpo e
de um roçar simples dos sentidos.
e morrer de amor é viver do amor
no último grito dado na catedral,
no eco das naves de pedra, polida
de cânticos e sons e vozes velhas.
direis vós. porque se morre de amor?

há uma flor sem uma pétala viva
por isso corta cerce com as mãos
o fio de sol que liga ao caule novo.
não importa que a seiva escorra para a boca
se os lábios frios não polinizam o beijo
que a vida importa de outro corpo aberto.

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Outonal

chove.

O teu corpo junto
ao meu desliza táctil
a rima no rumor da água.

a árvore molhada
goteja campainhas na folhagem
caída.

Ouve-se o vento
a fala, o sopro na seda dos cabelos.

As mãos abraçam o tronco
num beijo de chuva.

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josé félix

sexta-feira, dezembro 02, 2011

e o último sopro é uma flor seca, vasos sem aroma na brancura geométrica das pedras.

claire de lune – debussy

[Amelw Wewaller-Óleo sobre tela]

diariamente o sentimento prende-se
àqueles cujo olhar absorve o lado
sombrio de uma árvore em combustão.

noites de fogo e malvasia nos lábios.

um acorde e uma lua cheia de imprevistos
na claridade de uns olhos que perguntam
coisa nenhuma que é uma forma
de se interrogar quase tudo.
será que não tem mais encanto ainda, a lua,
depois de ser pisada pelo homem?
ainda há quem faça versos e
tenha as respostas todas num bater de cílios.

um cão lambe os dedos
e o dia transparece no rodar frenético
dos carros. deuses, mentecaptos, néscios
na margem das estradas clareadas.
um poema nasce e morre à intensidade
de um acidente e o último sopro
é uma flor seca, vasos sem aroma
na brancura geométrica das pedras.

que sentir é este onde os ciprestes
e os álamos vivem do húmus
resto de restos de ossos e vermes?

José Félix


domingo, novembro 20, 2011

a ponte também, dizem-me, é mulher.

a arte da poesia na tarde à beira-tejo



um navio. nas mãos, crisântemos e luzes.
a gaivota, um farol envelhecido
pelo sal, um sorriso de água.

a sama dos pinheiros brinca nos olhos,
nos passos. a maré fala junto às pedras.
os pombos equilibram-se na cúpula do atlântico.

as palavras deslizam submersas
na tinta descritiva da memória.
carícia leve num quadro de turner

a prenunciar o crepúsculo.
na ponte fluvial o andar traça caminhos
nas linhas temporais de klee

quando acompanho a morte, sempre próxima,
mesmo que esteja longe do naufrágio e,
do grito, só se ouça o eco do luto.

só, um corvo marinho desenha
a sua sombra sob as águas.
e do sol resta o brilho dos crisântemos.

a ponte também, dizem-me, é mulher.

josé félix


sábado, novembro 12, 2011

uma palavra de água sai da fonte e, suave, até que olhar o lábio cante,


à sombra dos salgueiros


1

moldei a água nas mãos e o olhar se-

-a como do espelho se fixasse

a virtude na transparência breve.



2

na calidez da luminosidade

a flor da água abriu o rosto que há de

beber a luz, sensual, cativa, grave.



3

a água do espelho cristaliza o sol

na corola de pólen, fulva, igual,

onde o beijo da abelha a vulva crava.



4


uma palavra de água sai da fonte

e, suave, até que olhar o lábio cante,

o rosto reflectido ou outro grava.



5

cantam as águas férteis sobre as pedras

íntimas, vivas, sábias em toadas

de luz e sol, à sombra dos salgueiros.


José  Félix

domingo, novembro 06, 2011

no corpo genuflexo uma tarde demais de um dia limpo.

a alquimia das begónias


deve haver certamente um peso expressivo

para que o músculo

motor de maior peso

interfira na práxis da existência.



e como um reles músculo

enfraquece

o mais másculo

e tudo o que é sublime não reclama

no corpo genuflexo

uma tarde demais de um dia limpo.



explicação psicossomática

de um médico de voz asmática



o aroma de uma flor

na primavera mais próxima da dor



não têm  o poeta e o médico

a prescrição perfeita

para a doença



um não sabe qual é a dose certa

da ampola química



e o outro desconhece a alquimia

das begónias



José Félix